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marcofigueiredo

dedico, à memória do que virá ainda, e à todo esquecimento alcançado. às pessoas e as coisas, não viveria sem elas. à linguagem, minha mãe e madrasta. aos leitores, ávidos ou discretos, pois que não existe o um, que escreve,sem o outro, que o lê, são cúmplices amorosos.

30 Julho 2006

hiber





um pouco mais de água fria
talvez, acorde
mas nesta vou
continuar dormindo

desculpe, chove,

verdade

11 Abril 2006

oriente


para onde ...?


o Ser é sempre tão cruel com espaços
pois o mundo muito espaçoso não o cabe
o Sertão, quem sabe ?
mas lá se é só e acompanhado de Deus e o Diabo,
o redemunho no meio

belo não é a falta do feio
belo é que sobra do Nada
belo é o que transborda da alma enluarada
belo é mais que anseio

é o solto das amarras que a Liberdade tece
da forte reza fraca que a Fé fenece
o ser insensível e o ser Sentido,
e mesmo assim
e em todos os sentidos,
orientar-se no perdido

Ser Não, tanto quanto ser Sim,
e cada vez mais,
ir deixando prá trás
a covardia do Tanto-faz
ser até um fim

forte ou fraca, que importa
são todas nossas as dores
e o Homem morre mais de sofrimento
que o bicho é sacrificado por causa elas
e entre os dois, o bicho e Deus,
a dor é a porta

a dor não mata
quem mata mesmo é o sofrer
é o querer que é a dor maior de se ter

e para onde...José ?
fugir para onde ?

Lá é onde Maria, Severina ou Baleia,
bate, bate e volta, nunca se esconde
bate até que na porta
um novo sorriso abra e se ilumine
e que a pedra no meio do caminho
seja então somente meio
aí a alma se solta
e José sabe então que só resta o seguir
o onde do onde ?

o onde é meio e é fim
num mundo rendido de todo ao Sim !

o tão Ser Veredas, somente

05 Abril 2006

la belle


lento como um poema evitado
segue e sopra o vento
a virar folhas outonais
e fazer dias mais frios, escurosos,
os brancos se amontoam em papéis agônicos
tantas palavras a escrever abaixo

mas fito somente a cortina florida
imóvel, trespassada pela parca luz,
que as guilhotinas permitem,
eu não me permito nada
nem o silêncio, nem a queixa,
só as entreabertas pálpebras
que secam as lágrimas estendidas
uma à uma por um fio

os pregadores tenho-os à mão


( imagem
La Belle Jardinière, Max Ernst )

04 Abril 2006

redundâncias


passado tudo, tudo é Passado,
a redundância encontrará um dia um bom entendedor
que não a leia por meias palavras
mas por palavras que dobram como os sinos
que sempre sabem por quem choram
e badalam as baladas da sorte
dos que a Morte arrastará ou arrastou
mas não lavará jamais em nossa lembrança
que era o necessário e crime
mas ainda assim doído
a condição humana , o mais supremo desafio a seguir
quando conosco ou quando a testemunhamos
em seu lento e repetitivo acontecer

02 Abril 2006

boca à boca


um dia não mais nos leremos
seremos somente palavras
a serem lidas ou esquecidas
escalavradas na rocha dura e datada,
do começo até nosso fim,
ou suaves cicatrizes ativas
na memória de algum
tão sós e ternas tradições
de como éramos
passadas boca à boca
como as nossas agora
mudas e que soletram
de uma para a outra :
o eu te amo !

04 Março 2006

mariées














As pálpebras secas, mesmerizadas, permaneceram indiferentes ao Coral de Mariscos e ,
pasme ! , nem os Professores de Cervejas as demoveram.

Em seu beijo cego, e à falta dela, novas Musas eram sitematicamente recusadas.

Soube-se depois que duas Andorinhas atrasadas haviam tentado em vão, mas foi em vão mesmo.

08 Janeiro 2006

purgatório








depois de um cigarro
um café,
confundo tudo
depois de um domingo como este
cheio de culpa
amanhã segunda feira eu purgo
ou será na terça, quem sabe o que será ?
não mais na quinta , que esqueço
e volto tudo de novo
porque num fim de semana
voce não vai querer
que eu vá pensar